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Reflexão do Mês

Fevereiro


Muitos carnavais


Por muitos anos da minha vida eu brinquei carnaval. Era uma foliã autêntica, daquelas que espera o ano inteiro para cair na brincadeira e faz uma fantasia para cada dia de folia. Hoje, não curto mais, não vejo graça. Entendi, enfim, o sentindo da vida. Mas não sou contra quem gosta, apenas tenho alguns “poréns”. Embora o carnaval seja a “festa da carne”, acredito, sim, que possa existir alguma inocência no meio de tanta loucura. Basta olharmos tudo pelo lado cultural e folclórico.  Parece pleonasmo se falar de carnaval e paz, mas, há muita gente que vê nesses dias de festa o resgate de muita coisa bonita. Falo isso por mim mesma. Como disse no início, brinquei muito carnavais, mas não sei o gosto que tem a cerveja, nem a sensação que há em cheirar lança perfume. Nunca experimentei nada dessas coisas. Mesmo assim, era “feliz” durante os quatro dias. Minha alegria era ouvir o frevo, as marchinhas, incorporar um personagem e observar, encantada, a irreverência dos foliões, admirar cada fantasia. Este ano, não brinquei carnaval, mas fui ao Recife Antigo olhar as ruas coloridas com os enfeites e alegres com o passa passa de tanta gente. Fui, também, mostrar aos meus filhos o folclore, para que eles conheçam o autêntico carnaval.

Mas tenho alguns “poréns”.  O primeiro refere-se à bebida alcoólica. Que me desculpem as grandes cervejarias, patrocinadoras de todos os carnavais, e que me desculpem também os amantes da cevada, mas nunca consegui entender tanto fascínio em torno da cerveja. O liquido tem um gosto horrível, desidrata e dá dor de cabeça no dia seguinte. O mesmo vale para o uísque e qualquer bebida. Fala sério: água de coco, suco e guaraná tem um sabor muito melhor. No fundo, todo ébrio sabe disso. Então, o que parece é que se quer encontrar na bebida uma fuga ou se quer preencher um vazio. Dizem que a pior ressaca da quarta-feira ingrata é a sensação ruim que se tem ao colocar a cabeça no travesseiro e cair em si que voltou à realidade. Há uma falsa alegria no meio de tanta euforia. E depois vem a deprê, o choro, o velho vazio. O que me parece é que, para a grande massa, o importante não é a festa em si, mas o que vai se consumir durante a festa. Quando cada um descobrir como se preenche o vazio da alma, aí, sim, será de fato feliz.
Minha outra indagação é em relação ao sexo sem censura. As campanhas em prol da camisinha são bem claras: “faça sexo à vontade com quem quiser, mas previna-se contra uma gravidez indesejada (?) e contra as DST”. Pronto, chegamos ao fundo do poço no tocante aos valores morais. A letra de uma canção de axé diz: “eu quero mais é beijar na boca e ser feliz daqui pra frente...”. Então, esse lado da festa onde reina o excesso de álcool, sexo liberado com múltiplos parceiros e músicas sem substância não pode ser considerado legal. Aos meus olhos.

Por outro lado, é lindo de se ver o folião pernambucano chegando ao desfile do Galo da Madrugada todo fantasiado. É tocante ver tanta gente bonita fantasiada no Recife Antigo e é instigante assistir a blocos e troças líricas, como Bloco da Saudade e Bloco das Flores. É muito bom ouvir, todos os anos, as composições de Capiba e Nelson Ferreira. É arrepiante escutar o coro nas ruas velhas da cidade entoar Madeira do Rosarinho. Quem é pernambucano se emociona e se envolve. É difícil ficar de fora. Chego aqui, então, ao terceiro “senão”. O Brasil é um País muito rico culturalmente e, assistindo à televisão durante o período momesco, vi que há muitas cidades brasileiras resgatando os antigos carnavais. Em Belo Horizonte, o prefeito proibiu tocar axé, pagode e brega nos pólos de folia. Decisão, a meu ver, acertadíssima.
Mas, os carnavais que mais vendem são o do Rio de Janeiro e o da Bahia. O desfile das escolas de samba do Rio realmente é um espetáculo à parte. Além do capricho das fantasias e adereços, é mostrada muita cultura, uma vez que cada escola estuda minuciosamente sobre o tema que será apresentado. Este ano, por exemplo, a Mocidade homenageou Machado de Assis e presenteou os expectadores e telespectadores com muita informação. Porém, o que dizer daquilo que a Bahia chama de carnaval? Só pode ser mesmo o carnaval na tradição exata no sentido bíblico: festa da carne. Primeiro, só brinca com dignidade quem é rico, pois quem é pobre fica na “pipoca”. E como é humilhante o lugar reservado a essa maioria fora dos cordões de isolamento! Depois, cada bloco tem uma farda que deverá ser repetida durante todos os dias. Mas o pior de tudo são as músicas, a chamada “axé music”. As letras oscilam entre o escracho à ausência total de substância. O que dizer de “o meu cabelo duro é assim, cabelo duro, de pixaim...”, ou de “o seu amor é canibal, comeu meu coração, mas agora sou feliz”, tem ainda “safado, cachorro, sem-vergonha, eu dou duro o dia inteiro e você colchão e fronha...”. O pior é que tem quem pague e muito caro para participar e ainda se sentem o máximo porque estão dentro do cordão de isolamento, pois é símbolo de status. A que nível o ser humano chega quando fica se sentindo tão importante por estar vestindo um... abadá! 
Demagogias à parte, bom mesmo é se o ser humano se juntasse durante quatro dias com o mesmo entusiasmo em prol de uma causa nobre.  O Brasil é o único País do Mundo que para durante tanto tempo para o povo curtir uma festa. É incrível! Se houvesse essa mesma disposição para o trabalho, estaríamos anos luz na frente.

Carla Nunes (Jornalista)

Reflexão do Mês
2009